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Eletroconvulsoterapia: o que a ciência explica sobre o tratamento conhecido como “eletrochoque”
Saúde & bem-estar

Eletroconvulsoterapia: o que a ciência explica sobre o tratamento conhecido como “eletrochoque”

Entenda como o procedimento é realizado, suas indicações e a origem da polêmica envolvendo o governo Bolsonaro e pessoas autistas.

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A palavra “eletrochoque” costuma despertar medo. Para muitas pessoas, ela remete a cenas de filmes, hospitais psiquiátricos e pacientes submetidos a procedimentos sem acolhimento ou consentimento. Essa associação tem raízes em uma história de práticas e abusos que não deve ser apagada. Entretanto, compreender a eletroconvulsoterapia, conhecida pela sigla ECT, exige conhecer também sua aplicação atual, as evidências científicas e os limites de sua indicação.

A ECT é um procedimento médico no qual um estímulo elétrico breve e controlado provoca uma crise convulsiva monitorada. Na prática contemporânea adequada, o paciente recebe anestesia geral e relaxante muscular, com acompanhamento de uma equipe especializada. Durante a aplicação, está inconsciente e não sente o estímulo. O relaxante reduz os movimentos musculares e o risco de lesões. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)

Não é correto afirmar que “eletrochoque” e eletroconvulsoterapia sejam técnicas completamente diferentes. “Eletrochoque” é o nome popular historicamente associado à ECT. O que mudou significativamente foram os equipamentos, a anestesia, a avaliação dos pacientes e os cuidados de segurança. A própria documentação brasileira sobre o tema reconhece que aplicações inadequadas e até punitivas contribuíram para o estigma. (gov.br)

Quando esse tratamento pode ajudar?

A ECT pode ser indicada em situações como depressão grave, determinados episódios graves de mania e catatonia. Esta última é uma síndrome que pode comprometer intensamente os movimentos, a fala e a capacidade de responder ao ambiente. Em alguns casos, a pessoa deixa de se alimentar ou beber; em outros, apresenta agitação intensa. A indicação depende de avaliação especializada, considerando gravidade, tratamentos anteriores e necessidade de resposta rápida. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)

Embora seja frequentemente utilizada quando outras intervenções não funcionaram, a ECT não precisa ser sempre a última alternativa. Em situações de risco, esperar sucessivas tentativas de medicamentos pode representar um perigo maior. As diretrizes clínicas reconhecem essa possibilidade, especialmente diante de catatonia grave e depressão com necessidade urgente de melhora. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)

Existem dados científicos que sustentam sua eficácia. Uma revisão sistemática publicada no British Medical Journal, em 2019, reuniu 113 estudos clínicos, com 6.750 participantes, sobre diferentes modalidades de estimulação cerebral para episódios depressivos. Algumas modalidades de ECT apresentaram maior resposta do que o tratamento simulado. Esses números correspondem ao conjunto das técnicas analisadas, e não exclusivamente à ECT. Os autores também apontaram limitações e diferenças na precisão dos resultados. (bmj.com)

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, aproximadamente 70% a 80% dos pacientes apresentam melhora substancial, enquanto cerca da metade alcança remissão — quando os sintomas se tornam mínimos ou ausentes. Os resultados variam conforme o quadro e o histórico de tratamento. Isso representa uma possibilidade terapêutica relevante, sem significar garantia de cura. (psychiatry.org)

E quais são os riscos?

A ECT pode causar dor de cabeça, náusea, dores musculares e confusão temporária. As alterações de memória merecem atenção especial: algumas pessoas têm dificuldade para registrar novas informações durante o tratamento ou apresentam lacunas de lembranças anteriores. Embora muitos efeitos melhorem, certas perdas de memória autobiográfica podem persistir. Também existem riscos anestésicos e cardiovasculares, avaliados individualmente. Informar esses riscos é parte indispensável do cuidado. (psychiatry.org)

Por que disseram que Bolsonaro queria dar “eletrochoque em autistas”?

A controvérsia teve um ponto central em dezembro de 2021, durante o governo Jair Bolsonaro. Uma proposta de atualização do protocolo do SUS sobre comportamento agressivo no transtorno do espectro autista foi submetida à consulta pública e incluiu uma discussão sobre ECT. O documento mencionava resultados considerados promissores em pequenas séries de casos, sobretudo de autoagressão e possível catatonia associada. Essa linguagem ajuda a compreender por que o texto despertou preocupação. (gov.br)

Entretanto, o mesmo documento registrava que as evidências eram incipientes e que o protocolo não recomendava essas intervenções. Em 17 de dezembro de 2021, a Conitec publicou um esclarecimento reafirmando a ausência de recomendação. Portanto, havia uma discussão real em um documento do Ministério da Saúde, mas isso não equivale a uma orientação geral para aplicar ECT em pessoas autistas. (gov.br)

A polêmica reapareceu em outubro de 2022. Em nota publicada no dia 13, a Conitec respondeu a um vídeo de Felipe Neto e reiterou que não recomendava ECT para o comportamento agressivo no autismo. Explicou que a menção havia sido solicitada por especialistas diante de relatos sobre quadros graves associados à catatonia. Os documentos consultados não demonstram uma ordem pessoal de Bolsonaro para “dar eletrochoque em autistas”. A atribuição ao então presidente decorreu da associação da proposta ao seu governo. (gov.br)

Há uma distinção essencial: tratar uma condição grave que pode coexistir com o autismo é diferente de tratar o autismo em si. Uma pessoa autista pode desenvolver catatonia ou depressão grave e precisar de avaliação específica. Isso não transforma a ECT em tratamento para características autistas, dificuldades de comunicação ou comportamentos que incomodam outras pessoas. (gov.br, psychiatry.org)

O debate responsável precisa reconhecer a história de violência psiquiátrica, ouvir pacientes e familiares e examinar as evidências sem prometer resultados ou alimentar pânico. Informação em saúde exige precisão, respeito à autonomia e compromisso com a dignidade de quem precisa de cuidado.

FONTE/CRÉDITOS: Marionita Gonçalves Dias 
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Marionita Gonçalves Dias 

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Marionita  Gonçalves

Publicado por:

Marionita Gonçalves

Especializações em terapia familiar sistêmica, avaliação psicológica, autismo e transtornos do desenvolvimento intelectual, ela atualmente é mestranda em Neurociências, além de atuar como treiner empresarial, promovendo saúde mental e comportamental...

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