Algo muda no cotidiano da clínica quando chega setembro. Nós, psicólogos, percebemos um fenômeno claro no consultório: pacientes passam a necessitar de mais sessões semanais ou, no extremo oposto, começam a desmarcar com uma frequência atípica.
Essa oscilação não é mero acaso. Ela ocorre, em grande parte, porque as redes sociais e os veículos de comunicação ficam saturados de conteúdos focados em ideação suicida, automutilação e adoecimento mental. Muitas pessoas que chegam à psicologia já tentaram o autoextermínio pelo menos uma vez na vida ou convivem com a ideação crônica. Em um mês no qual se fala ostensivamente sobre o tema, sem o devido cuidado técnico, o que deveria ser conscientização acaba funcionando como gatilho. Como diz o ditado popular: “de boas intenções, o inferno está cheio”.
É um alerta incômodo, mas apoiado pela ciência: as campanhas nos moldes tradicionais do Setembro Amarelo não têm sido capazes de conter os índices de suicídio. Um estudo epidemiológico de grande porte, publicado no periódico The Lancet Regional Health – Americas, analisou a evolução das taxas no Brasil e evidenciou que, mesmo após anos de campanhas massivas de conscientização, a mortalidade por suicídio seguiu uma tendência contínua de crescimento — com aumento anual médio de cerca de 6% entre jovens. O dado expõe, no mínimo, a ineficácia das estratégias atuais de comunicação de massa.
Onde estamos errando? Será uma falha na forma como comunicamos ou a prova de que “quanto mais se fala, mais se incentiva”?
Como psicóloga com mais de 13 anos de prática clínica, vejo uma grande fragilidade na forma como muitos profissionais e influenciadores abordam o tema nas redes sociais. Entre as condutas inadequadas mais frequentes, destacam-se:
- Sensacionalismo e detalhes descritivos: a exposição de métodos, locais ou bilhetes de despedida viola frontalmente as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e amplifica o efeito contágio, conhecido como Efeito Werther.
- Simplificação e romantização da dor: publicações com frases prontas, como “Fale, a sua vida importa” ou “Quem procura ajuda se cura”, reduzem o sofrimento humano a uma escolha individual, gerando culpa em quem tenta falar e não encontra uma escuta qualificada.
- Transformação do sofrimento em vitrine de conteúdo: o uso de ganchos chamativos (clickbaits) e vídeos apelativos para gerar engajamento desrespeita o tempo e o estado psíquico de quem consome aquele material sem ter solicitado esse tipo de conteúdo.
Para construir uma prevenção real, é preciso olhar para a complexidade clínica do problema. Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da OMS apontam que, em cerca de 96,8% dos casos de suicídio, havia um diagnóstico de transtorno mental subjacente — sendo que muitos não foram diagnosticados ou receberam tratamento inadequado. As patologias com maior correlação estatística com o autoextermínio são:
- Transtornos do humor: destacam-se a Depressão Maior e o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), este último apresentando um dos maiores riscos relativos na psiquiatria.
- Transtornos por uso de substâncias: especialmente a dependência de álcool e outras drogas.
- Transtornos de personalidade: com ênfase no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).
- Esquizofrenia e transtornos de ansiedade graves: como o Transtorno de Pânico e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
É também nesse cenário que surge um erro conceitual frequente nas redes sociais: a afirmação de que o autismo “causa” suicídio. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é, por si só, a causa direta do autoextermínio, mas pessoas autistas podem apresentar maior vulnerabilidade diante de comorbidades psiquiátricas não diagnosticadas ou negligenciadas.
Estudos publicados na JAMA Network e pesquisas sobre neurodiversidade apontam que a taxa de tentativa de suicídio entre pessoas autistas pode ser significativamente maior do que na população geral. Contudo, esse risco está relacionado, entre outros fatores, à presença de comorbidades severas, como depressão, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), TOC ou Transtorno Bipolar, além do esgotamento conhecido como autistic burnout, decorrente, em alguns casos, do esforço contínuo de adaptação e mascaramento social (masking).
São esses quadros associados, somados à falta de suporte adequado — e não a condição neurodivergente em si — que podem influenciar diretamente o sofrimento psíquico e o risco suicida.
Falar sobre prevenção do suicídio é urgente, mas a forma como fazemos isso importa ainda mais. Focar em gatilhos superficiais e em postagens emocionais concentradas em um único mês do ano não substitui o acesso contínuo à saúde mental, o diagnóstico preciso e a escuta ética e técnica.
A verdadeira prevenção não se faz com o barulho das campanhas, mas com cuidado de longo prazo.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se