Basta deslizar o dedo pela tela do celular para ser inundada por promessas de lábios perfeitos, mandíbulas milimetricamente desenhadas e corpos imunes à passagem do tempo. O que antes era tratado com o rigor e o cuidado da medicina, hoje ganhou uma roupagem perigosa: a de um mero bem de consumo.
Com a expansão das linhas de atuação profissional, o mercado da beleza abriu as portas. Biomédicos, dentistas, farmacêuticos, enfermeiros e fisioterapeutas; uma legião de profissionais migrou para a estética. Se, por um lado, isso democratizou o acesso, por outro, transformou a busca pelo bem-estar em um balcão de negócios. O processo tornou-se prático demais, acessível demais, "na mão" demais. Hoje, entrar em uma clínica de estética muitas vezes se assemelha a entrar em uma loja de conveniência: você aponta para a prateleira, escolhe o procedimento do dia e consome.
Essa facilidade mercadológica anestesia o nosso senso crítico. O desejo que nasce de um filtro de rede social pode ser "comprado" na esquina seguinte, sem filtros reais, sem pausas para reflexão.
Há uma diferença abissal entre o consumo imediato e o ato médico. Quando uma mulher decide buscar um dermatologista esteta, o ritmo é outro. Existe a necessidade de agendar uma consulta, de investir financeiramente nessa avaliação e de passar por um diagnóstico profundo da pele, da saúde e, por que não, da real necessidade daquela intervenção. Esse "tempo de espera"; o processo de marcar, pagar pela consulta e ouvir um profissional especializado; funciona como um poderoso freio psicológico. Ele obriga a paciente a pensar, a amadurecer a ideia e, muitas vezes, a desistir de um desejo que era puramente imediatista, fruto de uma insatisfação passageira.
O perigo mora justamente na ausência desse freio. Seduzidas por propagandas agressivas e facilidades de pagamento, muitas mulheres pulam etapas vitais. Não investigam o histórico de quem está empunhando a agulha, não pesquisam as complicações possíveis e não questionam a banalização de substâncias complexas.
O resultado dessa pressa mercantil tem sido catastrófico. O que deveria ser um resgate de autoestima tem se tornado uma fábrica de tragédias silenciosas. Rostos originalmente lindos e harmônicos acabam deformados por excessos; corpos sofrem mutilações invisíveis sob as roupas e, em casos que a mídia cansa de registrar, o preço final desse consumo desenfreado acaba sendo a própria vida.
A estética não precisa ser inimiga das mulheres, mas a sua mercantilização selvagem certamente o é. Precisamos urgentemente resgatar o valor do tempo, da consulta e do diagnóstico. Cuidar de si mesma não pode ter a mesma dinâmica de comprar uma roupa nova. Afinal, a nossa identidade, a nossa saúde e a nossa integridade física não possuem etiqueta de troca.
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