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Quinta-feira, 30 de Julho 2026
Corpos, Mentes e Desejos: Por Que Precisamos Falar de Sexualidade na Neurodiversidade?
Saúde & bem-estar

Corpos, Mentes e Desejos: Por Que Precisamos Falar de Sexualidade na Neurodiversidade?

Coluna: Marionita Gonçalves Dias 

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No último sábado, dia 25 de julho, tive a oportunidade de ministrar uma palestra no 1º Congresso Neurodivergente de Itanhaém, no litoral paulista. O encontro debateu um tema tão crucial quanto negligenciado: Neurodivergência e Sexualidade: Mitos e Verdades.

A experiência me fez refletir sobre uma lacuna que ainda persiste nos debates públicos e clínicos: por que falar de sexualidade na neurodiversidade causa tanto desconforto ou atrai tanto silêncio?

Além do Autismo: A Amplitude da Neurodiversidade.

Quando o termo "neurodiversidade" vem à tona, a associação imediata da maioria das pessoas costuma ser o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora o autismo seja uma peça fundamental desse ecossistema, o conceito abrange um espectro muito mais amplo. Estamos falando de uma infinidade de condições do neurodesenvolvimento, do neuroaprendizado e neuropsiquiátricas — incluindo o Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Bipolar, a Dislexia, a Tourette, entre outras.

Como cada cérebro neurodivergente processa estímulos, emoções e conexões sociais de maneira única, a sexualidade também se manifesta de formas singulares em cada uma dessas condições. Não existe um "padrão neurodivergente" para o desejo, o afeto e a intimidade.

1º Congresso Neurodivergente de Itanhaém, no litoral paulista
1º Congresso Neurodivergente de Itanhaém, no litoral paulista




O Que a Ciência Mostra: Diversidade Sensorial e de GêneroDurante a palestra em Itanhaém, foquei em três condições principais — Autismo, TDAH e Transtorno Bipolar —, trazendo à tona o que as pesquisas mais recentes têm revelado sobre essa interseção.

• Identidade de Gênero e Orientação Sexual: Diversos estudos internacionais indicam uma forte sobreposição entre neurodivergência e diversidade de gênero/sexualidade. Pesquisas apontam que pessoas autistas têm até oito vezes mais chances de se identificarem como LGBTQIA+ ou com variação de gênero em comparação com a população neurotípica.

• Aspectos Sensoriais e Intimidade: O processamento sensorial hiper ou hipossensível, muito comum no TEA, altera diretamente a experiência do toque, do ambiente e da intimidade. O que para um indivíduo é prazeroso, para outro pode ser uma sobrecarga sensorial dolorosa.

• TDAH e Busca por Dopamina: No TDAH, o funcionamento dopaminérgico influi no hiperfoco, na impulsividade ou na busca por novidade, o que pode se refletir em flutuações na libido, tédio em relacionamentos longos ou no engajamento intenso em novas conexões.

• Transtorno Bipolar e Fases de Libido: As oscilações entre fases de mania/hipomania (que frequentemente aumentam o impulso sexual e reduzem a percepção de risco) e de depressão (que costumam anular o desejo) exigem autoconhecimento rigoroso e manejo cuidadoso para evitar situações de vulnerabilidade.

A Urgência da Educação Sexual EmancipatóriaHistoricamente, corpos neurodivergentes enfrentaram dois extremos prejudiciais: a infantilização (a falsa crença de que são seres assexuados ou incapazes de consentir) e a patologização (a ideia de que seus desejos ou comportamentos sexuais são desvios a serem corrigidos).



É por isso que a Educação Sexual adaptada e emancipatória é um direito humano e de saúde pública. Ela não serve apenas para explicar a anatomia ou a prevenção de infecções transmissíveis. Educar para a sexualidade na neurodiversidade significa fornecer ferramentas para:

1. Desenvolver Noções de Consentimento e Limites: Compreender a diferença entre toques permitidos e invasivos, reduzindo expressivamente os altos índices de abuso sexual aos quais pessoas neurodivergentes estão expostas.

2. Entender a Comunicação Afetiva: Facilitar a tradução de sentimentos, necessidades e expectativas dentro das relações interpessoais.

3. Promover a Autonomia: Garantir o direito ao próprio corpo, ao prazer e à vivência saudável dos seus afetos sem culpa ou estigma.

Eventos como o Congresso de Itanhaém mostram que a sociedade está começando a abrir espaço para essas discussões. Reconhecer que cérebros diferentes sentem, desejam e se relacionam de formas diferentes é o primeiro passo para construirmos um mundo verdadeiramente inclusivo — dentro e fora dos livros da medicina.

FONTE/CRÉDITOS: Marionita Gonçalves Dias 
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Marionita Gonçalves Dias 

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