Era uma vez uma menina que sonhava em ir para a escola, em uma época na qual a educação ainda não era um direito de todos.
Através de muito esforço, sua mãe conseguiu uma vaga em uma escola de elite da cidade. Ela foi feliz para a aula, mesmo com seu irmão mais velho insistindo que aquele não era um lugar legal. Ao chegar, correu para mostrar à professora o que já sabia escrever. Seu primo estudava na mesma sala, porém, na hora do recreio, ele brincava com outras crianças e a ignorava.
Ela ficava sozinha, sentada à porta da sala durante todo o intervalo. Observava as crianças e suas brincadeiras curiosas, mas permanecia distante, presa ao seu próprio mundo. Sentia vontade de participar, mas não sabia como se aproximar, o que falar ou como agir.
O tempo passou e apenas uma única menina se aproximou para conversar. De resto, ela passou o ano todo ali, na porta da sala. Seu comportamento era visto como inadequado; as matérias e a dinâmica escolar não faziam sentido para ela. Todos os dias, percebia que era diferente e notava ser o alvo de cochichos maldosos.
No último dia de aula, ela brigou com o primo. Outra garota entrou na briga, tratando-a como um ser esquisito, alguém que não merecia amor. Quando a menina começou a agredi-la fisicamente, a única saída que ela encontrou foi mordê-la para que parasse. Aquilo foi um escândalo; a professora ficou horrorizada. No momento de entregar as avaliações finais, a docente foi categórica para a mãe: "Sua filha é muito inteligente, mas é inadequada. Por isso, será reprovada".
A reprovação significava que seu martírio se repetiria. A menina que ela havia mordido passou de ano e reuniu um grupo para persegui-la. Todos os dias, na saída da escola, chamavam-na de "cachorrinha", jogavam-na no chão e a chutavam. Ir embora tornou-se um sofrimento constante devido ao bullying severo.
Ela passou a odiar a escola. Sem amigos e rotulada como inadequada, não sabia como se portar para ser aceita. Até que, um dia, observando sua prima brincar, ela começou a analisar meticulosamente seus comportamentos. Entendeu que, se quisesse pertencer e ter amigos, precisaria copiar e imitar as outras pessoas. Era assim que o mundo funcionava.
Passou, então, a criar um repertório de comportamentos observados. Começou a "mascarar" tudo o que nela era considerado inadequado. Viveu uma vida inteira baseada em scripts, roteiros e encenações decoradas. Antes de ir a qualquer lugar, passava horas mentalizando como deveria cumprimentar as pessoas e o que responder a possíveis perguntas. Tudo para se encaixar.
A menina da porta cresceu cercada de dúvidas e dificuldades. Quando sua mãe faleceu, viu-se sozinha no mundo; a dor da solidão tornava-se dor física. O bullying continuou no trabalho e na faculdade.
Ela cursou Psicologia. Casou-se com um homem autista e TDAH. Tornou-se mãe e descobriu que seus filhos também eram autistas e tinham TDAH. Foi então que descobriu o nome de todo o seu sofrimento: Autismo.
A menina da porta sou eu, a colunista que lhes escreve toda semana.
Minha vida é um retrato da negligência vivida por inúmeras mulheres que descobrem tardiamente o autismo. Eu sou autista, bipolar, tenho fibromialgia e altas habilidades (AH/SD). Eu venci, mas quantas não conseguiram? Que este mês seja especial, que os direitos sejam respeitados, que meninos e meninas não sejam mais negligenciados e que o mundo se torne um lugar melhor para quem é diferente.