Nos últimos dias, o Brasil se chocou com a prisão do influenciador digital Hytalo Santos, investigado por tráfico de pessoas e exploração sexual infantil. O caso ganhou repercussão imediata, não só pelo alcance do acusado nas redes sociais, mas também porque trouxe à tona um problema que atravessa o país: a exposição de crianças e adolescentes e a facilidade com que predadores se aproveitam do ambiente virtual.
Esse episódio chega em um momento em que os números locais e estaduais sobre violência sexual contra crianças e adolescentes continuam alarmantes. Guarapuava apareceu em destaque no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, entre as cidades brasileiras com maior taxa de estupro e estupro de vulnerável em 2024, com cerca de 72,6 casos por 100 mil habitantes. A Delegacia local, é verdade, contesta a forma de cálculo do índice, mas o alerta está dado: o problema existe, é grave e precisa ser enfrentado com políticas públicas e redes de proteção fortalecidas.
No Paraná, a situação também preocupa. O estado concentrou 12 municípios entre os de maior taxa no ranking nacional. Foram 7.918 vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2024, um aumento de 3,9% em relação ao ano anterior. A taxa estadual chegou a 67 por 100 mil habitantes. Em todo o Brasil, o recorde histórico: 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2024 uma vítima a cada seis minutos.
E quem são os agressores? Longe do estereótipo do “estranho perigoso”, a realidade é ainda mais cruel: mais de 80% dos casos são cometidos por familiares ou pessoas próximas à vítima. O risco, portanto, está muitas vezes dentro de casa, o que dificulta denúncias e reforça a necessidade de atenção redobrada de escolas, serviços de saúde, conselhos tutelares e toda a rede de proteção.
Agora, soma-se a esse cenário o perigo digital. Depois do vídeo de Hytalo viralizar, a SaferNet registrou um aumento de 114% nas denúncias de abuso e exploração sexual infantil na internet em poucos dias. Só no primeiro semestre de 2025, foram 28 mil denúncias, contra 23 mil no mesmo período de 2024. Além disso, monitoramentos recentes mostram avanço de grupos de pornografia infantil em aplicativos de mensagens, como o Telegram, onde o crescimento foi de 78% em seis meses.
Se antes o abuso acontecia sobretudo em silêncio, dentro de lares e famílias, hoje ele também se expande no universo virtual. E o que parecia apenas uma inocente postagem de foto ou vídeo pode virar matéria-prima para criminosos.
É nesse ponto que precisamos refletir como sociedade. O caso de Hytalo Santos deve servir de alerta não só para a polícia e para o Judiciário, mas também para pais, responsáveis e educadores: a exposição de crianças na internet nunca é inofensiva.
Que esse choque coletivo se transforme em ação concreta: mais denúncias, mais proteção e mais diálogo com os nossos jovens. O combate à pedofilia, seja no lar ou no celular, exige vigilância permanente.
Canais de denúncia: Disque 100 (Direitos Humanos, 24h, gratuito) | SaferNet (denúncias anônimas de crimes virtuais) ou o 190 da Polícia Militar.