O debate levantado por Uta Frith em 2026 é indissociável da cultura digital. Se antes o diagnóstico de autismo era um processo restrito a consultórios e observações clínicas longitudinais, hoje ele passa por um filtro algorítmico que mudou a demografia do transtorno.
Abaixo, apresento uma análise sobre como as redes sociais atuam como o principal motor dessa "expansão" mencionada por Frith:
1. O Algoritmo da Identificação: De Espectador a Diagnosticado
As redes sociais (especialmente o TikTok e o Instagram) funcionam através de bolhas de relevância. O processo geralmente segue este fluxo:
•A exposição: O usuário consome um conteúdo sobre "sinais de autismo que você não conhecia" (geralmente traços genéricos como sensibilidade a etiquetas de roupas ou necessidade de rotina).
• O Reforço Algorítmico: Ao interagir, o algoritmo entrega centenas de vídeos semelhantes. Isso cria o Efeito de Frequência, onde o usuário passa a acreditar que aqueles traços são onipresentes e definidores de sua identidade.
•A Validação Comunitária: Grupos de apoio online oferecem o que a clínica muitas vezes demora a dar: pertencimento. Frith critica isso ao dizer que o autismo virou uma "vaga categoria de identidade" em vez de um constructo clínico preciso.
2. A "Glamourização" e a Patologização do Cotidiano
Um dos pontos mais sensíveis da crítica atual é a transformação de traços de personalidade ou dificuldades adaptativas comuns em sintomas patológicos.
•O "Masking" Universal: Frith argumenta que o masking (esforço para se socializar) é um comportamento humano universal, mas as redes sociais o isolaram como um sintoma exclusivo e definitivo do autismo "invisível".
• A Estética da Neurodivergência: Criou-se uma estética em torno do autismo leve que foca em talentos, hiperfocos "cool" e acessórios sensoriais (como abafadores de som coloridos). Isso gera uma desconexão visual e empática com o autismo de nível 3, onde o suporte é para funções básicas de sobrevivência.
3. O Perigo da Desinformação (Dados de 2026)
Estudos recentes (março de 2026) da University of East Anglia indicam que a taxa de desinformação sobre autismo e TDAH no TikTok chega a 41%.
•Muitos vídeos simplificam critérios complexos do DSM-5, levando jovens a um processo de autodiagnóstico que ignora diagnósticos diferenciais (como ansiedade social, trauma ou transtornos de personalidade).
• Isso sobrecarrega o sistema de saúde: profissionais relatam uma "avalanche" de pacientes que chegam ao consultório já convencidos do diagnóstico, muitas vezes resistindo a qualquer investigação clínica que aponte para outra direção.
4. O Contra-argumento: Democratização do Acesso
Não se pode analisar as redes apenas pelo viés da "diluição". Para muitos, elas foram a única porta de entrada para entender um sofrimento de uma vida inteira.
•Minorias e Mulheres: Historicamente negligenciadas pela ciência (que usava o modelo do "menino branco"), muitas mulheres só se reconheceram no espectro através de relatos de outras mulheres online.
•Justiça Social: O diagnóstico, mesmo o "leve", garante direitos de acessibilidade e proteção legal que, sem o rótulo, seriam negados.
A tensão entre Uta Frith e as redes sociais é uma colisão entre a Ciência Baseada em Evidências (que busca limites claros) e a Lived Experience (que busca validação subjetiva).
Quando Frith diz que o espectro está "próximo do colapso", ela alerta que, se todos são um pouco autistas, ninguém recebe o suporte específico de que precisa. O desafio da psicologia hoje é acolher quem descobriu sua neurodivergência no ambiente digital sem permitir que a seriedade clínica do transtorno se perca em meio a tendências de 60 segundos.