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Quinta-feira, 09 de Julho 2026
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Superdotação em debate: quando a genialidade vira produto e a ciência perde espaço
Saúde

Superdotação em debate: quando a genialidade vira produto e a ciência perde espaço

Na coluna desta semana, Marionita Gonçalves Dias alerta para a banalização das altas habilidades nas redes sociais, critica a confusão entre superdotação e transtornos clínicos e defende avaliações responsáveis, éticas e baseadas em evidências.

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Caminhar pelas redes sociais hoje em dia é deparar-se com um fenômeno curioso: de repente, o mundo parece povoado por gênios incompreendidos. O que antes era tratado com a devida raridade e cautela científica, transformou-se em um nicho de mercado lucrativo. 

A avaliação de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) virou um comércio aquecido, impulsionado por algoritmos que prometem respostas rápidas para angústias humanas profundas. O problema? Nessa esteira de produção em massa, estamos confundindo diagnósticos, patologizando o que não é doença e vendendo ilusões.

A Patologização do Comportamento

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O erro mais comum e perigoso dessa gourmetização da superdotação é a apropriação de características que pertencem a transtornos clínicos legítimos. Traços clássicos do Transtorno do Espectro Autista (TEA), do TDAH e até do Transtorno Bipolar estão sendo frequentemente "reembalados" e vendidos como se fossem manifestações de superdotação.
Essa confusão cria um desserviço em duas frentes:

1. Priva o indivíduo do suporte adequado para suas reais condições clínicas.
2. Faz parecer que a superdotação é um transtorno, uma patologia a ser tratada ou medicada.

Precisamos resgatar o óbvio: 

superdotação não é um diagnóstico clínico; é um conceito essencialmente pedagógico e de desenvolvimento. Não consta no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) como uma doença, porque simplesmente não é. Trata-se de um funcionamento cognitivo com características de aprendizado e processamento diferenciadas, voltado para o potencial de desenvolvimento humano e educacional.

Nem Milagre, Nem Doença: A Realidade da Raridade

Se por um lado a internet tenta transformar qualquer excentricidade ou hiperfoco em superdotação, por outro, ainda vigora o mito do "gênio de cinema" aquele ser infalível, um milagre vivo que resolve equações complexas aos cinco anos de idade.
A realidade está longe desses dois extremos. A superdotação real é rara. Não está na biografia de cada segundo influenciador digital. E, longe de ser um mar de rosas ou um superpoder romântico, ela frequentemente traz desafios severos para o dia a dia.
A grande assincronia entre o desenvolvimento intelectual e o emocional de uma pessoa com AH/SD pode gerar:
 Isolamento social e profunda sensação de inadequação;
 Ansiedade severa diante de um mundo que processa informações em um ritmo diferente do seu;
 Frustração crônica com sistemas educacionais e corporativos rígidos.

O Olhar Necessário

Romper com o comércio das avaliações fáceis é urgente. Identificar as Altas Habilidades exige responsabilidade, ética e uma compreensão profunda de que não estamos distribuindo selos de nobreza intelectual, mas sim buscando compreender as necessidades educacionais e existenciais de indivíduos singulares.
A superdotação não é um diagnóstico médico para justificar dificuldades de convivência, nem um troféu para inflar o ego de pais ou profissionais. É uma característica de desenvolvimento que precisa de acolhimento, direcionamento pedagógico correto e, acima de tudo, respeito à sua real complexidade. Afinal, a mente humana é vasta demais para ser reduzida a um produto de prateleira digital.

FONTE/CRÉDITOS: Marionita Gonçalves Dias 
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Marionita Gonçalves Dias 

Comentários

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Marionita  Gonçalves

Publicado por:

Marionita Gonçalves

Especializações em terapia familiar sistêmica, avaliação psicológica, autismo e transtornos do desenvolvimento intelectual, ela atualmente é mestranda em Neurociências, além de atuar como treiner empresarial, promovendo saúde mental e comportamental...

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