Confesso: eu gostaria de não precisar falar de política. Gostaria que ela fosse apenas mais um tema entre tantos outros, debatido com serenidade, argumentos e, sobretudo, respeito. Mas isso, hoje, parece impossível. No Brasil atual, a polarização ultrapassou há muito tempo os limites do aceitável e se infiltrou onde antes havia afeto, diálogo e convivência.
As redes sociais escancararam um fenômeno ambíguo. De um lado, deram voz a quem historicamente não tinha espaço para opinar, questionar ou se posicionar. Isso é, sem dúvida, um avanço democrático. De outro, abriram uma arena sem mediação, sem filtros e, muitas vezes, sem responsabilidade. Opiniões viraram armas. Divergências se transformaram em ataques. O debate, que deveria enriquecer, passou a ferir.
Direita ou esquerda — em algum ponto desse caminho deveria existir algo inegociável: o respeito à dignidade humana. No entanto, o que se vê com frequência é o oposto. Já presenciei famílias discutindo, se afastando e até se rompendo por conta de ideologias políticas. Laços que levaram anos para serem construídos se desfazem em poucos minutos de discussão inflamada, como se a diferença de pensamento anulasse toda a história compartilhada.
E o que mais preocupa é pensar que esse cenário tende a se intensificar em ano eleitoral. As palavras ficam mais duras, o tom mais agressivo e o senso de limite quase inexistente. O uso de termos ofensivos, de baixo calão e de acusações pesadas vai se tornando parte do cotidiano, como se a civilidade fosse um detalhe dispensável. Já não importa convencer, dialogar ou compreender — importa apenas defender o próprio lado, a qualquer custo.
A polarização política não é um fenômeno novo. Ela se manifesta em diferentes momentos da história, especialmente a partir da Idade Contemporânea. Em certos contextos, pode até gerar avanços e provocar debates necessários. No entanto, quando se radicaliza, traz consequências profundas e negativas, tanto para os indivíduos quanto para a nação. Cria-se uma barreira invisível: só tem valor quem pensa como eu. O outro deixa de ser alguém com direitos, história e humanidade — passa a ser apenas “o lado errado”.
Vivemos, hoje, em um mundo raso de pensamentos. Opina-se sobre tudo, muitas vezes sem conhecimento mínimo de leis, processos ou protocolos. Como se toda construção institucional e histórica pudesse ser descartada em nome de uma convicção pessoal. A balança do consenso parece quebrada. Não há meio-termo, não há escuta, não há dúvida. Apenas a certeza absoluta de que “o meu lado” está certo — mesmo quando os fatos mostram o contrário.
Somos, sim, capazes de escolher um lado da história. Isso faz parte da condição humana. Mas maturidade também exige discernimento: reconhecer que nem sempre estamos certos, que é possível aprender com o outro e, em alguns momentos, dar o braço a torcer. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja escolher um polo, mas lembrar que, antes de qualquer ideologia, somos pessoas. E sem respeito, nenhuma sociedade — por mais politizada que seja — consegue se sustentar.