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Quinta-feira, 21 de Maio 2026
Os laços do amor sem ser de sangue
Guarapuava

Os laços do amor sem ser de sangue

Paternidade adotiva transforma vidas e desafia visões tradicionais sobre o que significa ser pai.

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Nem sempre o amor chega pelas vias esperadas. Muitas vezes, ele percorre caminhos diferentes, que podem ser mais longos e inesperados, mas que não deixam de ser igualmente verdadeiros e profundos. O amor não se restringe aos laços de sangue; ele se constrói no cuidado diário, na dedicação, na presença constante e na vontade sincera de proteger e apoiar. É exatamente esse amor que celebramos neste Dia dos Pais, comemorado no segundo domingo de agosto, uma data especial para reconhecer e homenagear todos aqueles que assumem o papel de pai, seja por vínculo biológico ou por escolha, especialmente os pais adotivos — homens que decidiram amar, cuidar e formar uma família, dedicando seu coração e suas ações para construir laços duradouros.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil registrou nos últimos anos um aumento no número de adoções formalizadas, reflexo também da maior conscientização sobre a importância de dar um lar a crianças e adolescentes que aguardam por uma família. Segundo dados recentes, mais de 40 mil crianças estão cadastradas em filas de adoção em todo o país, esperando por laços afetivos que lhes garantam dignidade e amor.

No Brasil, a adoção é uma realidade que mobiliza milhares de famílias e demonstra que a paternidade pode ter diferentes formas e origens. Homens solteiros e casais que optam pela adoção mostram, na prática, que o verdadeiro significado de ser pai vai muito além da genética. A paternidade se manifesta na convivência diária, no respeito às particularidades de cada criança ou adolescente e na atenção dedicada às suas necessidades emocionais, físicas e sociais. Esses pais adotivos investem tempo, afeto e paciência para oferecer um ambiente acolhedor, seguro e cheio de carinho, onde seus filhos possam crescer com autoestima, confiança e sentimento de pertencimento.

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O vínculo afetivo entre pais adotivos e filhos é construído com o passar do tempo, por meio das pequenas atitudes que demonstram amor e cuidado: o ouvir atento, o apoio nas dificuldades, o compartilhar de momentos felizes e também o enfrentamento juntos dos desafios. Esse laço fortalece a sensação de família e cria uma base sólida para o desenvolvimento saudável dos filhos, independentemente de sua origem biológica.

Apesar dos avanços na legislação e na aceitação social, a adoção ainda enfrenta obstáculos significativos. A burocracia do processo, muitas vezes lenta e complexa, pode gerar ansiedade e incertezas para quem deseja adotar. Além disso, o preconceito e a falta de informação ainda são barreiras que dificultam o reconhecimento e a valorização das famílias formadas pela adoção. Contudo, organizações, grupos de apoio e políticas públicas têm trabalhado para oferecer suporte aos adotantes e adotados, promovendo uma maior compreensão sobre a diversidade das formas de paternidade e a importância do amor em suas múltiplas expressões.

 A psicóloga Mylena Jacinty explica:

A adoção é um processo que vai muito além de documentos e decisões legais. Construir um vínculo afetivo entre pais e filhos adotivos é uma jornada gradual, que se desenvolve no cotidiano, por meio de interações consistentes, demonstrações de cuidado e presença emocional. Diferente do vínculo biológico, que muitas vezes começa com a gestação, o vínculo adotivo é formado a partir do convívio, exigindo tempo, paciência e disponibilidade emocional de todas as partes envolvidas.

No início da convivência, é comum que surjam inseguranças, tanto por parte dos pais quanto da criança. Medo de rejeição, comportamentos desafiadores e reações inesperadas podem fazer parte dessa fase de adaptação. Para os pais, o desafio é manter a calma, estabelecer limites de forma afetiva e compreender que tais comportamentos podem ser formas da criança testar a segurança da nova relação.

O sentimento de pertencimento, segundo a psicóloga , não é imediato, mas sim fruto de repetidas experiências positivas. À medida que a criança vivencia momentos de proteção e afeto — inclusive nos momentos difíceis — começa a entender que aquele é seu espaço de segurança. Com o tempo, o vínculo ultrapassa o cuidado e se transforma em uma relação sólida de confiança e identidade familiar.

Outro aspecto importante no processo de adoção é o ajuste das expectativas. Idealizações irreais sobre como será a criança ou como ela deveria se comportar podem gerar frustração. Por isso, a aceitação da história, personalidade e necessidades reais do filho é fundamental. O acompanhamento psicológico pode ajudar tanto na preparação dos futuros pais quanto no processo pós-adoção, auxiliando na adaptação da criança e no fortalecimento da nova relação familiar.

Não existe um perfil único de pai ou mãe adotivo, mas certas características emocionais tendem a facilitar o processo, como paciência, flexibilidade, capacidade de lidar com frustrações e disposição para oferecer afeto de forma consistente. Ter consciência de que o vínculo será construído gradualmente é essencial para evitar cobranças excessivas e respeitar o tempo da criança.

Antes da adoção, é recomendável que os interessados passem por um processo de reflexão profunda sobre suas motivações, limites e sobre os desafios que podem surgir, especialmente quando a criança teve vivências anteriores de abandono, negligência ou traumas. Após a adoção, além do suporte psicológico, grupos de apoio a famílias adotivas podem ser valiosos espaços de troca de experiências e acolhimento.

“O psicólogo atua como facilitador: ajuda os pais a entenderem as necessidades emocionais da criança, auxilia na adaptação e oferece ferramentas para lidar com dificuldades comportamentais e emocionais. Para a criança, o acompanhamento pode ser um espaço seguro para elaborar a transição, trabalhar possíveis perdas e fortalecer o vínculo com a nova família”, finaliza Mylena.

A história de pai e filha Fabiano de Queiroz Jucá e Ana Lívia Brunelli Jucá:

Fabiano explica que não pode ter filhos, então a adoção foi o caminho natural. “O que eu não esperava é que minha filha adotiva fosse ser tão parecida comigo, nos gostos, qualidades e até nos muitos defeitos. Todos os meus 3 filhos, por assim dizer, são adotivos, e é uma experiência que me trouxe maturidade e sentido à vida. Antes eu me sentia meio "solto" no mundo, sem saber a que vim", explica o mesmo.

Essa percepção revela uma dimensão da paternidade que vai além da hereditariedade: a convivência diária, o afeto cultivado nos pequenos gestos e o aprendizado mútuo. Muitos pais que adotam crianças mais velhas, por exemplo, não vivem fases como os primeiros passos ou palavras, mas criam laços sólidos por meio de trocas cotidianas — olhares, conversas e descobertas compartilhadas.

A experiência de filhos adotivos também reforça o valor dessa presença constante e afetuosa. "Meu pai está sempre atento ao que eu preciso. Todos os dias, ele me pergunta como foi o estágio, deseja boa aula... são frases simples, mas que transmitem cuidado e me fazem sentir amada", diz Ana. Esses rituais diários, aparentemente banais, são manifestações claras de uma paternidade ativa e amorosa.

“Cresci em uma família desestruturada, onde não me sentia protegida ou incluída. O ambiente era caótico e eu não tinha uma base familiar saudável. Após a adoção, meus pais mudaram totalmente minha percepção sobre o que é uma família e como ela pode funcionar.Meu pai sempre foi muito racional, o que o torna habilidoso em encontrar soluções práticas para qualquer problema. Diante de desentendimentos, ele reúne a família para conversar, garantindo que possamos expressar o que nos incomoda sem guardar mágoas.Desde cedo, ele esteve presente para me ensinar valores e habilidades essenciais, incentivando-me a estudar, a seguir meus interesses e a não desistir diante de frustrações superáveis. Ele é uma pessoa forte e madura, e considero um privilégio chamá-lo de pai.Como também trabalha na área de linguagem e é escritor, ele sempre valorizou minha habilidade com a escrita, elogiando meus textos e reforçando que críticas negativas não definem meu valor. Essa postura foi determinante para minha autoestima: aprendi a confiar no meu potencial e a reconhecer minhas conquistas. A partir dessa relação, entendi que meus sentimentos importam e que tenho um espaço seguro. Essa segurança reforçou meu senso de pertencimento. Hoje sei que não enfrento nada sozinha, pois ele sempre estará disposto a me ouvir e a buscar soluções comigo”, diz a filha emocionada.

O amor paternal, independentemente da origem familiar, tem impacto profundo na autoestima e no senso de pertencimento dos filhos. Quando há escuta, apoio e consistência, cria-se um ambiente seguro onde é possível crescer e se desenvolver integralmente.“Família é família, independente da forma como foi criada e da sua estrutura. O que faz um grupo ter a configuração de família é o cuidado, a proteção mútua, a lealdade. Ensinamos, aprendemos, crescemos juntos, brigamos, nos divertimos, temos zilhões de dúvidas, preocupações, medos. É quando se erra tentando acertar, quando não se esmorece diante das dificuldades. É na família que descobrimos uma força que não tínhamos ideia de que possuímos”, finaliza o pai.

FONTE/CRÉDITOS: Ana Luiza Mattos 
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Ana Luiza Mattos 
Ana Luiza Mattos

Publicado por:

Ana Luiza Mattos

Ana Luiza Mattos de Lara é jornalista formada pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) em 2024. Atualmente, está se especializando em Comunicação Política e no Setor Público por meio de uma pós-graduação.

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