Nos próximos meses Guarapuava terá para quem torcer em festivais de cinema
em todo o país. Isso porque, em uma maratona de quatro dias de gravação, um
grupo de voluntários guarapuavanos está produzindo um curta-metragem que
irá concorrer em festivais de cinema independente. “Ruminância” está sendo
feito pelo coletivo Craca, um ambiente colaborativo, autônomo e de resistência
na produção audiovisual do interior paranaense.
“Ruminância” conta com a participação voluntária de mais de 30 pessoas
encantadas por arte, cinema e, especialmente, dispostas a produzir audiovisual
pela paixão de criar. Para a produção serão necessárias 36h de gravação,
distribuídas em uma maratona de quatro dias, que iniciou na sexta (17) e termina
na segunda (20). O filme é uma ficção e aborda o conflito entre o medo de agir e
a coragem de viver, retratando uma pessoa dividida entre imaginar e
experimentar.
A equipe está dividida em quatro grupos autogeridos: produção de cena, atuação,
assistência técnica e bastidores. Entre essas subdivisões, os integrantes se
responsabilizaram pela maquiagem, figurino, suporte de produção,
acompanhamento de agenda, análise técnica de objetos, cenário, verificação de
cena, acompanhamento de atores e equipe técnica, entre outras funções que
garantem a efetiva realização de uma produção profissional.
“Para a gente sempre foi um sonho fazer algo que juntasse várias pessoas para
criar arte em coletivo. Mas às vezes isso parece tão distante, principalmente
olhando daqui, do interior do Paraná. Mas no fim, foi só ter coragem e abrir um
formulário, e pronto, mais de 50 inscritos, e no fim, 30 selecionados para viver
essa experiência e construir esse curta com a gente. E ver essa galera animada,
confiando e fazendo de tudo para o nosso projeto dar certo é o que nos dá
certeza de que a experiência Craca é real”, aponta Larissa Tarcheviski, uma das
idealizadoras do coletivo.
Para John Taborda, roteirista do curta, a produção colaborou para unir pessoas
que sempre tiveram o mesmo propósito. “A gente conversava sobre produzir
filmes e falava que faltava uma base de pessoas também que estivessem ali com a mesma vontade de fazer aquilo, né? E agora a gente vê que tem um movimento
que foi se criando e que incentiva essas produções”.
E a realização desse sonho só foi possível por conta dessa base de pessoas que
acreditaram e toparam esse desafio. “Tá sendo interessante demais ver como que
a gente trouxe uma causa para perto dessas pessoas, elas abraçaram isso com
todas as forças e está todo mundo se responsabilizando. Não era falta de ter
pessoas dispostas, mas era falta da gente se organizar e fazer acontecer o cinema
coletivo”, garante Carlos Dino, diretor de “Ruminância”.
E, no futuro, tanto carinho por aquilo que se produz tende a se multiplicar. “A
tendência é que a gente faça mais filmes e que daqui cinco anos eu vejo todos
nós, em pé de igualdade, em conhecimento, em técnica, conseguindo fazer filmes
cada vez maiores, até um longa-metragem, quem sabe, e de forma independente,
coletiva e todo mundo sempre na horizontalidade”, finaliza Dino.
ROTEIRO
“Ruminância” apresenta duas versões da mesma pessoa. A primeira mostra seu
lado introvertido e ansioso, que tem medo de sair da zona de conforto e vive
preso em pensamentos do tipo “e se…?”, imaginando o que poderia ter
acontecido. Essas fantasias aparecem nas paredes de sua casa, que representam
tanto um refúgio quanto uma prisão.
A segunda versão retrata a coragem de agir, o impulso que faz dar o primeiro
passo e seguir em frente. Diferente da primeira, ela não sonha com o “e se”, mas
vive a experiência real: sente o medo e a adrenalina, e depois percebe que nada
de ruim aconteceu por tentar.
SOBRE A CRACA
A Craca é um coletivo autogerido voltado à produção independente. Sem chefes
ou hierarquias rígidas, o projeto se dedica à produção cultural e à expressão
artística em suas diversas formas, atuando na publicidade, identidade de marca,
audiovisual (videoclipes, curtas e cinema), design gráfico e outras vertentes da
arte e comunicação. Além disso, promove eventos, oficinas e encontros culturais,
fomentando a cena artística local e criando um ambiente onde o conhecimento e
a criatividade são compartilhados livremente.
“Nossa intenção é ter liberdade criativa total e compartilhar essa liberdade com
os outros. Por isso, entendemos que não podemos nos limitar ao nosso próprio
trabalho, sendo ele publicitário e artístico, mas abrir as portas da Craca para
produzir junto, aprender, ensinar e apoiar quem quer construir isso com a gente”,
afirma Kaue Vargas, um dos sócios e idealizadores do projeto.
O coletivo acredita que a arte não deve ser um privilégio nem um produto
padronizado para atender às demandas do consumo. Em um mundo dominado
pela lógica do lucro e da eficiência produtiva, a Craca surge como uma
alternativa que valoriza o tempo, a subjetividade e a experimentação.
Além disso, a Craca atua como um espaço gratuito para experimentações
artísticas de todos os tipos. Portanto, pessoas dispostas a criar por criar, sem
pretensões lucrativas, podem entrar em contato com o coletivo e utilizar os
equipamentos e espaço. A casa conta com câmeras, microfones, tripés,
iluminação, entre outras ferramentas profissionais. Em caso de produções
comerciais, o espaço da Craca pode ser alugado para gravações.
O nome Craca vem da palavra de uso popular que remete à sujeira, aquilo que
gruda e resiste. “E é exatamente essa resistência que reivindicamos. Somos a
contradição viva do que o mercado espera: não estamos aqui para sermos
polidos, retinhos ou encaixados em moldes convencionais. Estamos aqui para
criar de forma independente, subterrânea e contraditória ao olhar hegemônico”,
aponta as diretrizes que norteiam o coletivo.
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