Eu sou colunista, mas no passado já trabalhei em um hospital. Além disso, sou casada com um médico com mais de 25 anos de experiência, que teve inúmeros plantões e já viu de tudo.
Nos últimos anos, vimos uma democratização dos cursos na área da saúde: a liberação indevida de inúmeras faculdades de medicina, faculdades sem capacidade técnica para formar bons profissionais.
Seguindo o mesmo ritmo, o mesmo ocorre com os demais cursos na área da saúde, alguns que jamais deveriam ter sido liberados para a modalidade on-line e que, no entanto, o foram.
Em resumo, nos últimos anos, tivemos uma queda drástica na qualidade dos profissionais de saúde que estão sendo inseridos no mercado.
O Caso Benício escancara uma sucessão de erros sistêmicos que vão desde o RH do hospital até os técnicos de enfermagem; o caso envolve todos.
Quando todos focam em crucificar a médica, não estão buscando justiça, e sim vingança. Afinal, a justiça é pautada em fazer com que quem errou pague, quem poderia ter evitado e não evitou também responda, e, ainda, em evitar que o erro volte a acontecer.
Vamos entender por que foi um erro sistêmico:
1. O hospital contrata uma pessoa que não é especialista para atender na pediatria. Isso ocorre porque o hospital não quer pagar o valor de um especialista.
2. O hospital erra quando, na urgência, coloca profissionais que não têm experiência e formação em urgência e emergência — e isso resume a equipe inteira.
3. A médica avisa a mãe que será feita nebulização com adrenalina, mas prescreve intravenosa. Pode ter havido erro do sistema, porém a médica não confere antes de assinar a prescrição, cometendo o erro ao não seguir o protocolo de dupla checagem.
4. A adrenalina intravenosa é feita em casos de parada cardiorrespiratória. Em um adulto, seria uma dosagem de 1 ml. No Benício, foram aplicados 3 ml, uma dosagem cavalar.
5. Outro erro é cometido quando a medicação passa pela farmácia, que a libera sem fazer a checagem obrigatória, sendo ela uma medicação de alto risco.
6. A medicação chega na enfermagem nas mãos de uma técnica inexperiente, e ficou claro em seu depoimento e entrevista que, além de inexperiente, ela não estudou ou não teve um bom preparo para atuar onde estava.
Destaco o ponto mais grave desse caso, ao qual poucos estão dando a devida importância. A técnica foi informada por uma colega que a prescrição estava errada e que ela não deveria aplicar daquela forma, pois colocaria a vida da criança em risco. Ela promete que não vai aplicar assim, mas decide por sua conta e risco aplicar e colocar a vida do menino em risco.
Por que esse é o ponto mais grave desse caso? Porque, no erro, não há ciência de que a morte possa ocorrer; não há intenção. Neste caso, a técnica foi informada do erro, alertada do risco e, mesmo assim, o aplica. Aqui, vemos um outro comportamento: um comportamento intencional. E isso não pode passar batido.
Na entrevista que ela deu após o seu depoimento, vimos um comportamento frio, debochado e o tempo todo culpando a médica. Que a médica tem culpa, todos sabemos, mas o deboche e a insistência em se livrar de qualquer resquício de culpa chamam a atenção de quem acompanha.
Ressaltamos estes fatos para pontuar que, em um caso como este, o erro é sistêmico. No entanto, o problema não está só nos erros, mas em uma nítida falta de organização do hospital e total falta de perícia de todos os profissionais ali presentes. Não há engajamento entre a equipe, e isso é fundamental em um lugar onde o objetivo é salvar vidas.
Quando falta conhecimento, sobram arrogância, prepotência e desumanização.
Que a família encontre consolo e, na medida do possível, possa superar essa terrível perda!
FONTE/CRÉDITOS: Marionita Gonçaves
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a de nosso portal.