Gerson de Melo Machado era um jovem de 19 anos, portador de esquizofrenia e deficiência intelectual.
Aos 10 anos, Gerson foi encontrado em uma BR, e foi assim que as autoridades descobriram que ele tinha mais quatro irmãos. Sua mãe e seus avós também tinham histórico de esquizofrenia.
Ele e seus irmãos foram levados para uma casa-lar e tiveram o poder familiar destituído. Os quatro irmãos foram adotados; Gerson, contudo, não, pois já apresentava sinais de problemas mentais.
Sempre que fugia, Gerson voltava para a casa da avó em busca de acolhimento e amor. A realidade de Gerson era de pobreza extrema.
A assistente social e a conselheira que o acompanhavam tentaram um tratamento para ele por oito anos. No entanto, ele sofria negligência por parte dos médicos, que julgavam seus problemas como simplesmente de comportamento. Infelizmente, crianças que crescem em abrigos sofrem com esse preconceito e são vistas como "crianças problemáticas" por não terem a figura parental.
Após completar 18 anos, ele foi para as ruas, afinal, só é permitido permanecer na casa-lar até essa idade. Sozinho, sem tratamento e sem como se sustentar, praticava pequenos delitos e pedia para ser preso, pois na cadeia tinha onde dormir e o que comer.
Até o fatídico dia em que ele, que tinha o sonho de domar leões na África, entrou na jaula de uma leoa e, infelizmente, não voltou.
O que é esquizofrenia e por que é tão grave?
A esquizofrenia é um transtorno mental crônico e grave caracterizado por uma quebra na realidade (psicose), manifestada por sintomas como alucinações (percepções falsas, como ouvir vozes), delírios (crenças falsas e fixas) e desorganização do pensamento e do comportamento . Além desses sintomas ditos "positivos", o paciente frequentemente apresenta sintomas negativos (perda de funções normais), como apatia, isolamento social e diminuição da expressão emocional, o que a torna tão grave. É considerada uma das doenças mais debilitantes da medicina porque afeta profundamente a cognição, o afeto e a funcionalidade da pessoa, levando a uma deterioração significativa da qualidade de vida, dificuldades no trabalho e nos relacionamentos, e exigindo, na maioria dos casos, tratamento contínuo e suporte psicossocial por toda a vida.
As principais falhas do estado:
Negligência no Tratamento de Saúde Mental:
Subdiagnóstico e Recusa de Tratamento: Apesar de ser acompanhado pelo Conselho Tutelar desde a infância e de apresentar transtornos mentais visíveis (com histórico familiar de esquizofrenia), o Estado e os psiquiatras teriam insistido por anos que ele tinha apenas um "problema comportamental", recusando o tratamento especializado necessário.
Falta de Tratamento Especializado: Gerson precisava de tratamento psiquiátrico adequado, mas não o recebeu de forma efetiva. A juíza que determinou seu tratamento psiquiátrico após uma de suas detenções afirmou que o acolhimento não ocorreu da forma devida.
Modelo de Cuidado Inadequado: O modelo de saúde mental brasileiro ainda está voltado para o transtorno grave e cronificado (herança da era manicomial), e os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) não foram desenhados para prevenção ou tratamento precoce de primeiros episódios psicóticos, o que é fundamental para um prognóstico melhor.
Falta de Vagas e Estrutura: Foi citada a dificuldade de se obter informações sobre vagas em unidades terapêuticas, refletindo a carência estrutural e de recursos no sistema.
Abandono na Infância e Juventude:
Falha na Acolhimento e Adoção: Gerson foi destituído do poder familiar, mas, diferentemente de seus irmãos, não foi adotado, permanecendo em acolhimento institucional. Segundo relatos, ele teria sido rejeitado repetidamente pela sociedade devido aos possíveis transtornos, o que configura uma falha na rede de proteção.
Vulnerabilidade Extrema: Gerson viveu em extrema vulnerabilidade e pobreza. Falha da assistência social básica em garantir sua sobrevivência digna.